Há um ruído na vida — grotesco, cruel —
que nos empurra para lugares
onde a alma ainda não tem idade.
Talvez a maior frustração
não seja viver na mesma cidade desde o nascimento,
mas testemunhar tudo se transformar
enquanto você permanece intacto,
preso ao tempo como se ele não o enxergasse.
Dias desses, pensei:
quão triste deve ser
sempre saber qual será o próximo passo.
Não se surpreender com o que o mundo pode oferecer,
mas seguir, mecânico,
anotando tarefas em agendas
como quem risca a vida com marca-texto.
Sentir apenas o alívio
de ter cumprido uma lista,
e adormecer apenas para repetir —
no dia seguinte, a mesma dança
no mesmo compasso.
Deve ser cruel demais
atravessar o dia
sem notar se o céu amanheceu nublado
ou se era um azul que merecia ser contemplado.